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Corrupção sistêmica do PT não pode ser banalizada, afirma Pestana

30/04/2015

 

Marcus Pestana criticou PT e banalização da corrupção (Foto: Alexssandro Loyola/PSDB na Câmara)


No plenário da Câmara, na tarde de ontem (29/04), o deputado federal Marcus Pestana enfatizou que não se pode banalizar os fatos gravíssimos relacionados a denúncias de corrupção que envolvem o Governo do PT. 
 
“O importante, dentro dessa profunda crise em que se mergulhou o Brasil, é não banalizar os fatos, não tornar normal aquilo que não é normal. O espírito conciliador e de acomodação nos leva às vezes a achar que devemos aceitar tudo, mas não é possível a banalização de fatos gravíssimos,” afirmou ao citar a crônica de Marina Colasanti: “Eu sei, mas não devia”. (veja texto abaixo)
 
Em seu discurso, o deputado elencou diversos fatos que considera “anormal”, como a senadora do PT Marta Suplicy, militante há mais de 30 anos do partido, criticar abertamente os desvios do PT. Para Pestana, também não é comum o PT ter seu segundo tesoureiro, João Vaccari Neto, preso e processado por corrupção e lavagem de dinheiro, seguindo a trilha de Delúbio Soares (ex-tesoureiro do PT). 
 
“Não é normal, a gente se acostuma, mas não devia. Não é o normal o PT que despertou tantas esperanças, ergueu uma utopia que eu assisti nas décadas de 70 e 80, se afundar num lodaçal de corrupção trazendo a desesperança e uma crise econômica profunda. Há momentos em que é preciso dar um basta.”
 
Assista ao pronunciamento na íntegra:
 

 
 
Abaixo íntegra da crônica de Marina Colasanti
 

Eu sei, mas não devia (Marina Colasanti)
 
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
 
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
 
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
 
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
 
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. 
 
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
 
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
 
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
 
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
 
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
 
(1972)
 
Fonte: www.releituras.com / O texto acima foi extraído do livro "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.

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