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Homenagem a Itamar Franco

10/08/2011 00:00


Num tempo em que proliferam escândalos na vida pública e a ação política é ameaçada pela mediocrização e pelo fisiologismo, a ausência de Itamar Franco provoca necessariamente uma reflexão profunda.
 
Itamar Franco foi um daqueles políticos singulares na história do Brasil. O conterrâneo mais ilustre da minha Juiz de Fora. Símbolo de ética, dignidade, firmeza, espírito público e nacionalismo. Sim, Itamar Franco foi acima de tudo um nacionalista. Pulsava nele, como em poucos, o sentido de Nação que um dia Vinicius poeticamente descreveu: “Não te direi o nome, pátria minha. Teu nome é pátria amada, é patriazinha (...) vives em mim como uma filha, que és. Uma ilha de ternura: a Ilha Brasil, talvez”. Animava Itamar o pulsar de um coração guerreiro e civil, que pensava sempre na construção de um grande país e que transpirava na ação cotidiana o desejo dos mineiros Milton e Brant: “Quero a utopia, quero tudo e mais, quero a felicidade dos olhos de um pai, quero a alegria, muita gente feliz, quero que a justiça reine em meu país”. 
 
Lembro bem dos meus 10 anos, em 1970, dos comícios, santinhos e principalmente do jingle da campanha que elegeu meu pai na sua sucessão na Prefeitura de Juiz de Fora com o lema em seu refrão: “As obras não podem parar, Agostinho Pestana depois de Itamar”. Itamar tinha sido eleito aos 36 anos, em 1966, acompanhado de uma nova geração de políticos e técnicos, e promoveu uma administração histórica e modernizante. 
 
Em 1974, após ser eleito para um segundo mandato frente à Prefeitura, Itamar teve um gesto de coragem e ousadia – traços que sempre o acompanharam. Itamar acreditava na afirmação do estadista inglês: “sem coragem, as outras virtudes carecem de sentido”.   Desligou-se do cargo de Prefeito para, em pleno regime autoritário, se candidatar ao Senado Federal pelo MDB. Venceu e fez parte daquela que talvez tenha sido a mais brilhante geração que já passou pelo Senado. A partir daí, participou de forma marcante das lutas pela redemocratização e pela defesa do interesses nacional. Sempre convicto de que “tudo é possível até que se prove impossível. E ainda assim o impossível pode sê-lo apenas por um momento”.
 
Em 1982, acompanhei de perto sua reeleição ao Senado já que, aos 22 anos, era candidato a Vereador. Essas eleições foram decisivas para a transição democrática. O voto era vinculado.  Foi minha estréia eleitoral, antes mesmo de formar em economia. Fizemos barba, cabelo e bigode.
 
Em 1986, coordenei a dissidência do PMDB em Juiz de Fora a favor da candidatura de Itamar ao Governo de Minas. Pimenta da Veiga liderava essa corrente no plano estadual. Esta foi a semente da criação, em 1988, do PSDB.
Veio o Governo Collor e a crise do impeachment. Itamar assume a Presidência em condições extremamente graves e instáveis. O PSDB é o primeiro a se oferecer para colaborar. Itamar com serenidade e firmeza consolida um Governo de união nacional. Nem todos entenderam a gravidade daquele momento. Itamar deixou uma herança definitiva. Garantiu a liberdade, pois assim com Tiradentes e Cecília, amava a “Liberdade – essa palavra, que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que explique, e ninguém que não entenda”. Assegurou a estabilidade econômica através do Plano Real. Iniciou o ataque frontal à miséria por acreditar com Gandhi que “deveríamos ter vergonha de repousar e tomar refeições abundantes até o dia em que exista um só homem, uma só mulher, sem trabalho e sem comida”. Gozando de enorme prestígio popular escolhe e elege Fernando Henrique Presidente da República.
 
De 1998 a 2002, realiza o sonho de Governar sua Minas tão querida. Sempre passeou em sua alma o sentimento universal, mas enraizado, cantado pelo Clube da Esquina: “Eu sou da América do Sul (...) sou do ouro, eu sou vocês, sou do mundo, sou Minas Gerais”. E em gesto generoso, abre mão da reeleição para apoiar Aécio Neves, seu amigo e companheiro de sonhos. Em 2010, tem papel decisivo na grande vitória de Anastasia, elegendo-se, pela terceira vez, Senador da República, ao lado de Aécio. Nos quatro meses de exercício do novo mandato se destacou de forma absoluta pela exemplar e consistente ação oposicionista.
 
Itamar Franco deixará um enorme vazio. Certa vez João Cabral de Mello Neto iluminou caminhos ao dizer: “Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe este grito que ele e o lance a outro; de um outro galo que apanhe o grito que um galo antes e o lance a outro; e de outros galos que com muitos outros galos cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos”. Que a memória de Itamar Franco seja esta teia e a busca permanente de um novo amanhecer em seu amado Brasil. Que sua lembrança fortaleça a convocação de outro mineiro ilustre, Tancredo Neves: “Não vamos nos dispersar. Continuemos reunidos, como nas praças públicas com a mesma emoção, a mesma dignidade e a mesma decisão. Se todos quisermos, dizia-nos, há quase 200 anos, Tiradentes, aquele herói enlouquecido de esperança, poderemos fazer deste país uma grande Nação”. Que seu exemplo de vida, Itamar, impregnado de dedicação à ética, à Pátria e ao povo brasileiro, invada, inunde e conquiste corações e mentes das novas gerações de brasileiros.
Itamar, aqui ficam registradas no Congresso Nacional, arena das lutas que motivaram sua travessia, a nossa admiração e eterna gratidão! 
 
Discurso proferido pelo deputado federal Marcus Pestana (PSDB-MG) em sessão solene conjunta do Congresso no dia 10 de agosto de 2011.