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Sobre a tolerância e o sectarismo

Jornal O Tempo

14/12/2016

 

 
Tempos bicudos os nossos. Crescem a intolerância e o sectarismo. A globalização vai deixando suas vítimas pelo caminho, despertando a reação dos marginalizados pelo curso das coisas. A abundância gerada pela revolução tecnológica não é bem repartida. As guerras, a fome e a miséria produzem um enorme contingente de deserdados. A imigração em massa e o desemprego alimentam ódios recíprocos. O xenofobismo e os fundamentalismos radicais geram conflitos abertos ou latentes que abraçam a cena contemporânea.
 
A vitória de Trump nos Estados Unidos, a expressiva votação da extrema direita na Áustria, a vitória do Brexit na Grã-Bretanha, a derrota da reforma constitucional na Itália, as perspectivas de radicalização na França, a forte presença do terrorismo como ameaça permanente são faces de um mundo que não oferece às novas gerações um horizonte alvissareiro. A intolerância racial, religiosa e política preenche os vazios deixados por uma globalização que incorpora o livre trânsito de mercadorias e capitais, mas não consegue lidar com o deslocamento dos excluídos.
 
A convivência com as diferenças e a necessidade da construção democrática de consensos progressivos tornam-se cada vez mais difíceis. Certa vez, Gandhi afirmou: “Tolerância é uma necessidade em todos os tempos e para todas as raças. Mas tolerância não significa aceitar o que se tolera”. Conviver com a divergência não é fácil. O dogmatismo e o sectarismo derivado obstruem canais de diálogo. É necessária uma atitude aberta, dos pontos de vista comportamental, existencial e intelectual. É preciso reconhecer a legitimidade do outro e entender que nem sempre há uma única verdade.
 
Em perspectiva diversa, o filósofo francês Raymond Aron disse: “Se a tolerância nasce da dúvida, que nos ensinem a duvidar dos modelos e utopias, a recusar profecias da salvação, os arautos de catástrofes”. O fanatismo e o radicalismo, terrenos férteis de intolerância, não constroem pontes, e sim abismos. E, como apontou Diderot, “do fanatismo à barbárie não há mais do que um passo”.
 
O Brasil, mergulhado em grave e multifacetada crise, não foge à regra. A intolerância e o sectarismo crescem de forma veloz e desordenada. O debate atual é marcado pela intransigência. O pensamento fica prisioneiro de “verdades absolutas”, preconcebidas. Preconceitos e atitudes agressivas contra os “diferentes” ganham corpo. Como alertou Nelson Rodrigues sobre essa atitude: “Se os fatos são contra mim, pior para os fatos”. As redes sociais, grande avanço civilizatório, se tornam um verdadeiro campo de guerra a jorrar intolerância, intransigência, calúnias e agressões gratuitas.
 
Urge recuperar o espírito de grandes democratas que nos trouxeram até aqui, como JK, Ulysses e Tancredo, que cultivaram a arte da política como campo de diálogo e disputa inspirado no interesse público e nacional, marcado pelo respeito aos divergentes e pela busca dos consensos que fizeram o país avançar.
 
Publicado no jornal O Tempo em 12 de dezembro de 2016

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