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Conexões e desconexões na democracia plugada

jornal O Tempo

18/09/2017

 

No dia 27 de junho de 2017, Mark Zuckerberg, presidente-executivo do Facebook, anunciou que a maior rede social do mundo havia atingido a marca de dois bilhões de usuários. Fato é que, gostemos ou não, as redes sociais se incorporaram ao dia a dia das pessoas e vieram para ficar.
 
Toda tecnologia é neutra do ponto de vista ético-moral. É apenas ferramenta que abre possibilidades inovadoras. O impacto da internet e das redes sociais na vida das pessoas é uma das maiores revoluções já ocorridas no capitalismo mundial. Como toda ferramenta tecnológica, pode ser usada para bem ou para o mal. A qualidade do uso não está na ferramenta, está nos valores e objetivos que movem quem a usa.
 
Do ponto de vista comportamental, ainda é cedo para dizer sobre a profundidade das mudanças nas relações interpessoais. Confesso que fico um tanto aflito ao ver nos aeroportos, restaurantes ou mesmo na rua, as pessoas hipnotizadas por seus smartphones, plugadas todo o tempo, “como se não houvesse amanhã”. Não foi isso que o poeta quis dizer. A substituição de um abraço ou de um telefonema de aniversário por uma mensagem de WhatsApp não é propriamente um avanço apreciável nas relações humanas. Será que realmente as redes estão aproximando as pessoas? Amigo, nos meus tempos de infância e juventude, se fazia na escola, no clube ou na mesa de bar, e não no Facebook.
 
Do ponto de vista coletivo e da vida pública, é inegável que as redes sociais abrem um ilimitado campo de inovações para o avanço da democracia e da liberdade. Pode se tornar um instrumento poderoso de democracia direta. Sem dúvida faz correr muito mais velozmente as informações e possibilita a interatividade dos líderes com as bases da sociedade. O problema é a qualidade do uso, fakenews, a intolerância, a falta de educação e civilidade, a falta de abertura para um verdadeiro diálogo, a distorção dos fatos.
 
Não sou tão radical quanto o grande escritor italiano Umberto Eco, que certa vez disse: “As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis”. “A internet não seleciona a informação. Há de tudo lá… O excesso de informação provoca amnésia. Conhecer é cortar, é selecionar”.
 
Fui criado no meio de intenso debate acadêmico, teórico e ideológico. Nasci para a vida pública dentro do processo de reconstrução da democracia brasileira. Tenho cabeça e espírito abertos, fair play, bom humor e profundo respeito por quem pensa diferente. Mas não tenho como esconder certo incômodo com o nível de intolerância, má educação e radicalismo nas minhas redes sociais, onde “canalha” é a adjetivação às vezes mais suave que recebo aos borbotões no debate de matérias polêmicas, que sempre trato com seriedade e transparência.
 
Precisamos refletir sobre isso. O instrumento é precioso para a democracia, mas o mau uso pode inviabilizar seu potencial. Mais importante que instituições e ferramentas democráticas é a cultura democrática. E esta mora dentro de nós. Ou não.
 
Publicado no jornal O Tempo em 18 de setembro de 2017

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